Teste de mísseis da Coreia do Norte: uma resposta direta aos EUA na Venezuela
O teste de mísseis de Pyongyang, na sequência de uma incursão dos EUA na Venezuela, reafirma a sua postura de dissuasão nuclear.
A Coreia do Norte anunciou ter testado com sucesso um míssil hipersónico, um lançamento que ocorreu menos de 24 horas após uma incursão militar dos EUA em Caracas com o objetivo de capturar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
Segundo um comunicado dos meios de comunicação estatais norte-coreanos, o exercício foi realizado a 4 de janeiro por uma unidade do Exército Popular da Coreia. A data escolhida envia um sinal claro a Washington e aos seus aliados regionais, enquadrando o lançamento como uma resposta direta às ações da política externa dos EUA. O comunicado oficial descreveu o teste como uma "avaliação operacional da sustentabilidade, eficácia e operação da dissuasão bélica da RPDC" e uma verificação da prontidão do sistema de armas hipersónicas.
Embora apresentado como um exercício de preparação nuclear, o teste não envolveu uma ogiva nuclear real.
Kim relaciona teste com crises geopolíticas
O líder norte-coreano Kim Jong-un, que supervisionou pessoalmente o lançamento, relacionou explicitamente a actividade militar com acontecimentos globais. "Para ser honesto, esta atividade visa claramente elevar gradualmente o poder de dissuasão nuclear a um patamar altamente desenvolvido", afirmou, acrescentando: "A razão pela qual isto é necessário é exemplificada pela recente crise geopolítica e pelos complexos acontecimentos internacionais."

O lançamento de mísseis por Kim Jong Un, da Coreia do Norte (à esquerda), está a ser interpretado como uma resposta estratégica directa ao ataque dos EUA contra Nicolás Maduro, da Venezuela (à direita).
Esta declaração é uma referência clara, ainda que indireta, à operação dos EUA contra Maduro. A lógica estratégica de Kim, frequentemente repetida nos seus discursos, é que um arsenal nuclear credível é a única defesa fiável contra uma mudança de regime liderada pelos EUA. Cita frequentemente as lições do Iraque e da Líbia, argumentando que Saddam Hussein e Muammar Kadhafi foram depostos porque não possuíam capacidade nuclear. Esta perspectiva é provavelmente partilhada pelos líderes do Irão, que acompanham de perto estes acontecimentos.
Embora muitas nações aliadas dos EUA vejam o governo de Kim como mais problemático do que o de Maduro, a posse de armas nucleares pela Coreia do Norte altera fundamentalmente o cálculo estratégico, impedindo intervenções militares directas, como as invasões.
Pyongyang denuncia os EUA como um 'Estado pária'
Numa declaração formal, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Norte condenou a acção dos EUA na Venezuela, utilizando uma linguagem tipicamente reservada por Washington a Pyongyang.
"O incidente é mais um exemplo que confirma claramente, mais uma vez, a natureza desonesta e brutal dos EUA, que a comunidade internacional tem testemunhado com tanta frequência há muito tempo", declarou o ministério.
A declaração prosseguiu: "O Ministério dos Negócios Estrangeiros da RPDC denuncia veementemente o ato de busca da hegemonia dos EUA cometido na Venezuela como a forma mais grave de usurpação de soberania e como uma violação flagrante da Carta da ONU e das leis internacionais."
Testes são retomados após pausa diplomática
Embora a frequência dos testes de mísseis norte-coreanos tenha diminuído nos últimos anos, este último lançamento ocorre após um aumento da atividade no final do ano passado. Estes testes incluíram um míssil de cruzeiro estratégico de longo alcance e um novo sistema antiaéreo.
Os testes nucleares foram retomados após uma série de encontros históricos, mas infrutíferos, entre Kim Jong-un e o presidente dos EUA durante o primeiro mandato de Trump. As cimeiras não conseguiram alcançar o avanço esperado na "desnuclearização" por parte de Washington e Seul, levando Pyongyang a retomar uma postura mais defensiva e desafiante.


