Petróleo venezuelano: porque é improvável que as refinarias japonesas comprem petróleo.
Apesar da influência dos EUA na Venezuela, o sector energético japonês considera o crude do país inviável devido aos obstáculos técnicos e aos custos elevados, o que amplifica os riscos geopolíticos globais.
Após a operação militar dos EUA na Venezuela que levou à captura do Presidente Nicolás Maduro, o sector energético japonês está a sinalizar que uma mudança para o crude venezuelano é altamente inviável, apesar do potencial de aumento da produção sob influência dos EUA.
Segundo Shunichi Kito, presidente da gigante petrolífera japonesa Idemitsu Kosan, os obstáculos técnicos e económicos são simplesmente demasiado grandes para as refinarias japonesas.
As barreiras técnicas e económicas
A questão central reside no próprio petróleo. "O crude da Venezuela é pesado e tem um elevado teor de enxofre", explicou Kito num evento empresarial em Tóquio. Isto representa uma incompatibilidade fundamental com a infraestrutura energética do Japão.
As refinarias japonesas estão configuradas principalmente para processar petróleo bruto do Médio Oriente. Consequentemente, a utilização de petróleo venezuelano "será difícil devido à configuração dos equipamentos", acrescentou Kito.

O presidente da Idemitsu Kosan, Shunichi Kito, descreve os desafios do processamento de crude venezuelano para as refinarias japonesas.
Este sentimento é partilhado por toda a indústria. Um executivo de uma grande distribuidora de petróleo observou que o processamento do petróleo venezuelano "pode exigir investimento de capital em refinarias". Para justificar tal reestruturação, o preço necessitaria de ser muito baixo. "Não será rentável a menos que o preço seja significativamente inferior ao do petróleo do Médio Oriente".
Mesmo com o entusiasmo do presidente norte-americano, Donald Trump, em aumentar a produção de petróleo venezuelano, Kito acredita que qualquer desenvolvimento significativo ainda está "muito longe".
Impacto limitado no mercado, risco geopolítico crescente
Para já, os líderes do sector acreditam que a intervenção dos EUA na Venezuela não causará grandes transtornos ao Japão.
"Não terá um impacto direto na aquisição de petróleo bruto", afirmou Kito, acrescentando que quaisquer efeitos indiretos nos preços do petróleo serão "limitados por enquanto".
Dados da Agência de Recursos Naturais e Energia do Japão confirmam a ausência de dependência. O Japão não importa atualmente petróleo bruto venezuelano, sendo que o último carregamento de 470 mil quilolitros chegou em 2017. As principais refinarias, ENEOS Holdings e Cosmo Energy Holdings, também não utilizam petróleo venezuelano.
No entanto, as implicações geopolíticas a longo prazo são motivo de preocupação. Kenichi Hori, presidente da trading Mitsui Co., observou que "os tremores geopolíticos estão a tornar-se mais pronunciados", mesmo que o impacto imediato no mercado ainda não seja claro.
Um representante da empresa energética japonesa Inpex destacou um risco mais vasto: "O ataque dos EUA à Venezuela aumentou o risco de outras nações poderosas tomarem medidas semelhantes". Alertou que se os conflitos se expandirem para novas regiões, isso poderá afetar a produção e os preços globais.
Além disso, se a influência dos EUA sobre as vastas reservas da Venezuela aumentar, poderá enfraquecer a liderança da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Um especialista do sector petrolífero sugeriu que isto poderia tornar "mais difícil chegar a um consenso sobre cortes coordenados na produção", embora o efeito final sobre os preços seja difícil de prever.
A profunda dependência do Japão em relação ao petróleo do Médio Oriente.
A relutância em adoptar o crude venezuelano é reforçada pela profunda dependência do Japão em relação aos fornecedores do Médio Oriente. No ano fiscal anterior, o Japão importou 136 milhões de quilolitros de petróleo bruto, sendo que 96% deste total provinha do Médio Oriente. Esta dependência só aumentou desde a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Kito enfatizou que esta relação é uma fonte de estabilidade. "O Japão e o Médio Oriente aprofundaram a cooperação económica mútua", disse. "As relações são favoráveis e os riscos [da exposição ao Médio Oriente] são menores do que eram durante o choque petrolífero dos anos 70."
Uma Oportunidade Futura para a Engenharia Japonesa
Embora as refinarias japonesas vejam pouco valor no petróleo venezuelano, a indústria de engenharia de plantas industriais do país vê uma potencial oportunidade. Se for estabelecido um governo pró-americano na Venezuela, isso poderá abrir significativas oportunidades de negócio na reconstrução das infraestruturas petrolíferas do país.
Durante o governo de Maduro, as empresas chinesas detinham um quase monopólio na construção de refinarias. Uma mudança política poderá abrir o mercado às empresas internacionais.
"Vamos esperar pelo menos um ano para ver o que acontece, mas se a situação política estabilizar, surgirão oportunidades de negócio", disse Eiji Hosoi, presidente da Toyo Engineering.
Koji Ota, presidente da Chiyoda, partilhou uma visão semelhante. "Não estamos a procurar ativamente projetos neste momento, mas assim que a situação política estabilizar, iremos considerar receber encomendas para obras de renovação da refinaria e outros projetos."


