As refinarias estatais indianas continuam a comprar petróleo russo em meio à pressão dos EUA.
As refinarias estatais indianas reforçam as importações de crude russo, desafiando as tarifas americanas ao colmatar as lacunas do sector privado.

Apesar da crescente pressão dos Estados Unidos, as refinarias estatais indianas continuam a comprar crude russo, segundo os analistas do mercado energético. Esta persistência ocorre mesmo enquanto Washington utiliza tarifas e sanções para restringir um recurso económico vital que ajuda Moscovo a contornar as sanções ocidentais impostas devido à guerra na Ucrânia.
Os EUA intensificaram a sua posição, impondo uma tarifa "secundária" de 25% sobre certos produtos indianos em Agosto e sancionando as gigantes petrolíferas russas Lukoil e Rosneft no final de Novembro. O atrito diplomático foi evidenciado quando o senador norte-americano Lindsey Graham afirmou, no domingo, que o embaixador da Índia, Vinay Mohan Kwatra, tinha solicitado a sua ajuda para pressionar o presidente Donald Trump a suspender as tarifas, alegando uma redução nas compras de petróleo russo.
Gigantes privados recuam, empresas estatais entram em cena.
Embora as importações totais de crude russo pela Índia tenham caído em Dezembro, uma análise mais detalhada revela uma mudança estratégica, e não uma retirada completa. Os analistas salientam que a queda foi impulsionada sobretudo pela redução das compras da Reliance Industries, um conglomerado privado pertencente a Mukesh Ambani, que era um dos principais importadores antes da entrada em vigor das sanções no final de Novembro.
Em contrapartida, as refinarias estatais, também conhecidas como empresas estatais (PSUs), entraram em cena para preencher parte desta lacuna.
"As refinarias do sector público continuam a processar crude russo com uma ligeira tendência de alta, impulsionada pela procura interna de combustíveis e pela conjuntura económica", explicou Pankaj Srivastava, vice-presidente sénior de mercados de commodities da Rystad Energy.
Esta opinião é partilhada pela empresa de rastreamento de navios-tanque Kpler. Muyu Xu, analista sénior de petróleo bruto da empresa, salientou que empresas estatais como a Indian Oil Corporation (IOC) e a Bharat Petroleum Corporation (BPCL) "continuaram a comprar petróleo bruto russo para entrega futura, através de fornecedores não sancionados".
Os pedidos de comentários enviados à IOC, BPCL, Hindustan Petroleum Corporation e ao Ministério do Petróleo e Gás Natural da Índia não foram respondidos.
Avaliando a queda real: uma análise dos números
Os dados das empresas de market intelligence confirmam um cenário complexo de redistribuição. A Rystad Energy estima que as importações indianas de crude russo tenham caído aproximadamente 300 mil barris por dia desde novembro, estabilizando nos 1,7 milhões de barris. No entanto, a empresa prevê uma "recuperação modesta" para 1,8 milhões de barris por dia em janeiro.
"Apesar da queda das importações totais, a receção de petróleo bruto russo pelas refinarias estatais manteve-se resiliente, evidenciando uma redistribuição em vez de um colapso na procura", acrescentou Srivastava.
Os dados da Kpler mostram também uma queda significativa de mês para mês. Segundo a empresa, "as importações indianas de crude russo caíram 595 mil barris por dia em dezembro, em comparação com dezembro do mesmo ano, atingindo 1,24 milhões de barris por dia — o nível mais baixo desde dezembro de 2022".
As ameaças de tarifas de Washington aumentam.
As compras contínuas por parte de empresas apoiadas pelo Estado mantêm o assunto na mira de Washington. Em declarações à imprensa a bordo do Air Force One, no domingo, o Presidente Trump afirmou que os Estados Unidos poderiam aumentar as tarifas sobre a Índia se Nova Deli não restringir adequadamente as suas importações de petróleo russo. Este aviso direto sinaliza que o impasse económico e diplomático está longe de estar resolvido.


